1848 - Almeida Antiga
AA1848

Capítulo
10

1 COMO a mosca morta faz feder e evaporar ao unguento do perfumador: assim o faz ao famoso em sabedoria e em honra huma pouca de loucura. 2 O coração do sabio esta á sua dextra: mas o coração do louco está á sua esquerda. 3 E até quando o louco vai pelo caminho, seu coração lhe falta: e diz a todos, que he louco. 4 Levantando-se contra ti o espirito do que domina, não deixes teu lugar; porque he mezinha que aquieta grandes peccados. 5 Ainda hum mal ha, que vi debaixo do Sol: como o erro que procede da face do que domina. 6 Ao louco assentão em grandes alturas: mas os ricos estão assentados na baixeza. 7 Vi servos a cavallo: e Principes que andavão a pé como servos sobre a terra. 8 Quem cavar cova, cahirá nella: e quem romper muro, cobra o morderá. 9 Quem acarretar pedras, padecerá dores por ellas: e o que fender lenha, perigará por ella. 10 Se alguem embotou o ferro, e elle não amollar o córte, então se devem pôr mais forças: mas excellente cousa he a sabedoria para endireitar algumacousa. 11 Se a cobra morder não encantada: já então remedio nenhum se espera de encantador algum, por mais eloquente que seja. 12 As palavras da boca do sabio agradão: porem os beiços do louco o devorão. 13 O principio das palavras de sua boca he locura: e o fim de sua boca hum desvario bem roim. 14 Bem o louco multiplica as palavras: porem o homem não sabe que he o que ha de ser; e quem lhe fará saber o que será depois delle? 15 O trabalho dos loucos a cada qual delles fadiga: porquanto não sabem ir á cidade. 16 Ai de ti; ó terra, cujo Rei he menino: e cujos Principes comem pela manhãzinha. 17 Bemaventurada tu, ô terra, cujo Rei he filho dos nobres: e cujos Principes comem a seu tempo, para forças, e não para se emborracharem. 18 Pela muita preguiça se enfraqueçe o tecto: e pela froixidão das mãos goteja a casa. 19 Para rir se fazem convites, e o vinho alegra aos vivos: e por tudo o dinheiro responde. 20 Nem ainda em teu pensamento amaldiçoes ao Rei, nem tam pouco no mais interior de tua recamara amaidições ao rico: porque as aves dos ceosvirião a levar a voz, e os que tem asas farião saber a palavra.